
Começou a fotografar em 2002. Em 2003, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco. Em 2004, foi chamado para integrar a equipe da JC Imagem, no Jornal do Commercio, onde está até hoje. Seu foco são as pessoas. Nos retratos, tenta registrar a história, o contexto e a personalidade de seus retratados. No cotidiano, tem em mente que cada foto se trata não apenas de uma notícia ou de um fato, mas de pequenas partes de uma história maior.
Recebeu o Prêmio Infância sem Violência – Save The Children America Latina (2005), o Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo (2006). Em 2009, recebeu o Prêmio SESC/Marc Ferrez, Menção Honrosa no 31o Prêmio Vladimir Herzog e venceu as categorias de Foto Isolada e Ensaio do
Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo. Tem obras no Museu da Abolição – Centro de Referência da Cultura Afro-Brasileira, Recife.
Muitas vezes, quando menos esperamos, uma boa história surge na nossa frente. Uma palavra, uma situação, ou um detalhe - pelo qual poderíamos “passar batido” mas que, por algum motivo, damos um pouco mais de atenção - carrega o fantástico. Foi assim com À Flor da Pele. Cobrindo uma pauta comum, quase protocolar, surge, sem relação alguma com o que estava fazendo, uma situação do cotidiano. Três crianças brincando, um gato próximo, nada que alguém - ou eu mesmo - já não tivesse visto, exceto por uma particularidade de dois dos pequenos, albinos. Mas, a cena corriqueira guardava uma complexa trajetória biológica que fez os irmãos de família negra nascerem brancos e serem obrigados a viver uma infância longe de coisas simples como brincar na rua. As imagens contam um dia normal dessa família que por sua vez, revela todos os poréns e dificuldades de sua história. A situação extrapolou os limites regionais, tocou muita gente, pessoas que ajudaram de diversas maneiras. Essa repercussão me fez - em uum momento de crise do jornalismo como o que estamos - acreditar no poder transformador que nós, jornalistas, temos na ponta de nossas canetas e nas lentes de nossas câmeras.
Trabalho realizado
Nasceram sem cor, numa família de pretos. Três irmãos que sobrevivem fugindo da luz, procurando alegria no escuro. O mais novo diz que é branco vira-lata. Os insultos do colégio viraram identidade. Eles têm raça sim. São filhos de mãe negra. O pai é moreno. Estiraram língua para as estatísticas e, por um defeito genético, nasceram albinos. Negros de pele branca.
A chance dos três nascerem assim na mesma família era de uma em um milhão. Nasceram. Dos cinco irmãos, apenas a mais nova é filha de outro pai. Kauan, 5 anos, Ruth, 10, e Esthefany, 8, têm a liberdade controlada pelo fator do protetor solar. Não é só isso. São pobres e feridos. Não há dinheiro para parcelar a proteção. O PhotoDerm 100 é o maior sonho dos “galeguinhos” da V-9, favela de Olinda. Custa R$ 96 e só dura três semanas. O jeito é se esconder em casa mesmo. Televisão grudada no rosto.
Vez por outra, Kauan, num estouro de criança, desafia o maior inimigo. Fecha os olhos e corre feito louco no meio da rua. Grita para o sol e escuta outro grito maior lá de dentro. É a mãe, Rosemere Fernandes, 27, tentando evitar mais uma noite de ardor e ventilador ligado no máximo. Sem protetor, ir para a escola, distante 200 metros de casa, é um martírio. A menina mais velha se veste de menino. “Tem que colocar camisão. Não ligo. Tenho orgulho de ser assim.” Os dias de vaidade são também os dias de ferida.
O sol não quer saber da teimosia. Queima onde não tem pano. Há uma ferida pior, maior ainda, daquelas que não vira casca nunca. A mãe quer ser chamada de mãe. Não tem remédio que dê jeito. “Só me chamam de babá.” Hoje, a preocupação é outra. “Ficaria feliz se pudesse cuidar bem deles, comprar os protetores. Tô usando pasta d’água.” A conta é simples. Rosemere ganha R$ 122 de um programa social. O pai ajuda com R$ 200. “Tive que colocá-lo na Justiça para comprar os óculos dos três.” O albinismo afeta o desenvolvimento do olho ainda no processo embrionário. A visão é comprometida, mas os três óculos estão quebrados.
As feridas aumentaram porque os olhos ficam fechados. As quedas são frequentes. João é o olho dos três. Para o colégio, seguem todos de mãos dadas. “Preste atenção, João. Você sabe que é o olho dele”, alerta a mãe. Ela quer ser policial, Kauan, bombeiro ou dentista, e Esthefany, modelo. Segundo o professor do Departamento de Genética da Universidade Federal de Pernambuco Valdir Balbino, a chance de cada filho do casal de negros ser albino é de 25%.” A chance de os pais das crianças, entre os quatro primeiros filhos, terem produzidos três deles albinos era de 1,5%.